sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

“Uma Pequenina Luz"




 Uma pequenina luz bruxuleante

não na distância brilhando no extremo da estrada

aqui no meio de nós e a multidão em volta

une toute petite lumière

just a little light

una picolla… em todas as línguas do mundo

uma pequena luz bruxuleante

brilhando incerta mas brilhando

aqui no meio de nós

entre o bafo quente da multidão

a ventania dos cerros e a brisa dos mares

e o sopro azedo dos que a não vêem

só a adivinham e raivosamente assopram.

Uma pequena luz

que vacila exacta

que bruxuleia firme

que não ilumina apenas brilha.

Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.

Muda como a exactidão como a firmeza

como a justiça.

Brilhando indeflectível.

Silenciosa não crepita

não consome não custa dinheiro.

Não é ela que custa dinheiro.

Não aquece também os que de frio se juntam.

Não ilumina também os rostos que se curvam.

Apenas brilha bruxuleia ondeia

indefectível próxima dourada.

Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.

Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.

Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.

Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.

Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:

brilha.

Uma pequenina luz bruxuleante e muda

como a exactidão como a firmeza

como a justiça.

Apenas como elas.

Mas brilha.

Não na distância. Aqui

no meio de nós.

Brilha


Poema de Jorge de Sena 

( dedicado por mim ao bravo povo persa) 


sábado, 4 de maio de 2024

Intoxicação alimentar

 Ao fim da tarde há uma brisa como mão a alisar o pêlo do ficcionista da vida real enquanto sussurra obscenidades ao ouvido. O vento tem destas coisas e acorda Insónias. Além do tempo e do espaço. Queima tudo por dentro. Mas a vida não pára e tu não és o que pensavas ser. Tu gajo banal com a cabeça cheia do tal ideal social a surrealizar por aí, estás preso na tua própria rotina, corcunda de camisa engomada e gravata apertada. Desespera-te a quimera. E o futuro é um furo no pneu de um carro desgovernado. É o que é. Uma pouca vergonha. É o que é..porque casa onde falta pão sobra confusão e falta tesão. E o português é um cão melancólico com dúvidas e dívidas e já não sabe se rosna, se morde ou se abana a cauda enquanto o dono não lhe dá com a trela. O tempo é só desastre e esquecimento. Desastre e esquecimento. Alternadamente.

sexta-feira, 3 de maio de 2024

“O MAIS BELO ESPECTÁCULO DE HORROR SOMOS NÓS.

Este rosto com que amamos, com que morremos, não é nosso; nem estas cicatrizes frescas todas as manhãs, nem estas palavras que envelhecem no curto espaço de um dia. A noite recebe as nossas mãos como se fossem intrusas, como se o seu reino não fosse pertença delas, invenção delas. Só a custo, perigosamente, os nossos sonhos largam a pele e aparecem à luz diurna e implacável. A nossa miséria vive entre as quatro paredes, cada vez mais apertadas, do nosso desespero. E essa miséria, ela sim verdadeiramente nossa, não encontra maneira de estoirar as paredes. Emparedados, sem possibilidade de comunicação, limitados no nosso ódio e no nosso amor, assim vivemos. Procuramos a saída - a real, a única - e damos com a cabeça nas paredes. Há então os que ganham a ira, os que perdem o amor.” António Forte

terça-feira, 15 de junho de 2021

Ausências

Num deserto sem água Numa noite sem lua Num país sem nome Ou numa terra nua Por maior que seja o desespero Nenhuma ausência é mais funda do que a vossa

Sofia de Mello Breyner Andresen


quinta-feira, 10 de junho de 2021

E.T

 Queridos pais

 Sinto-me cada vez mais extraterrestre...

domingo, 6 de junho de 2021

Meus pais


 
Meu pai

Minha mãe

Sem vocês sinto-me fora do tempo

Fora do lugar

Uma irrealidade irrespirável

Sem pátria, nem mátria

Vocês são o país da minha infância

Petrificado agora nas fotos onde os olhos e os sorrisos bailam em segredo

Onde vocês estão e são Deuses criadores

De todo um universo

E duns pobres diabos também

 Chamados vossos filhos

Agora sinto o vento que brinca na copa das árvores e baralha as cores ao passar, verde escuro, verde claro e um pássaro canta bem alto a vossa ausência

E até pode ser que um melro venha comer-me à mão o resto destes dias sem vocês. Um melro não, um pardal é mais provável que sim. Mas o melro lembra-me de ti papá que tanto gostavas desse pássaro de negras asas e bico de fogo. E eu sei que vocês andam por aí no vento, na copa das árvores, no canto no bico de pássaro que a asa transporta.

 

 

 

 

 

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Pais são estrelas que brilham mesmo depois de desaparecer

"Vocês ensinaram-me a coragem das estrelas antes de partir...e como a luz, continua eternamente mesmo após a morte

This is not Goodbye little alien

"If I was in the library of your mind for a while I would place the smell of coffee next to the memory of you learning how to ride the bicycle, so you would remember you have to start in order to find your balance (...) I would hide these lines into your nightmares so the next time you face your demons, You might think that someone loved you". este puto com uma camara diz o que vai na alma dum qualquer alien orfão de pai e mãe num qualquer recanto ignoto deste universo. Só que este alien vai sempre lembrar-se de quem o amou incondicionalmente. A memória do amor perdura para além do tempo e do espaço.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

há um grão de luz a dançar no poema, nesse movimento há um texto costurado junto ao silencio do corpo a querer dizer aquilo que há tanto tempo aguarda ser dito. um texto de verdade a entrar pelo sexo adentro, a sair pela pele a dizer vem e a oferecer-se inteiro a sorrir para ti. o texto poético busca a linguagem do corpo e ousa dar-lhe sentidos novos, ele acima de tudo não se quer portar bem. o texto deita a língua de fora aos senhores respeitáveis e puxa as saias às senhoras donas de casa com princípios (mas sem olhar a meios para alcançar os fins). porque o poema não é uma puta. ele não se vende, não se compra, ele oferece-se à sua total (in)compreensão. ele é em certos dias de perfeita transparência atmosférica o mar que nos chama nas copas das árvores quando a brisa corre nos ramos e rebenta nos nossos ouvidos. "só para ouvir passar o vento já valeu a pena ter nascido" diz o poeta. ele é natural. não usa maquilhagem. só uma ternura que dói. um contemplativo estado de urgência. texto a rodopiar pelo ar. poema enlouquecido.

o poema é um planeta onde se pode viver e respirar bem fundo


mas o meu texto é árido
fala de um silencio quotidiano
(quantos gritos e renuncias haverá dentro dele?)
sai um clarão de entendimento para a mesa do fundo se faz favor?
(ali onde se apascenta, entre o queque e a bica escaldada, o demónio dos dias que passam)
se houvesse um nome capaz de explicar esta ausência com que povoamos os dias...
conseguiria ele conter tudo o que nos falta e fere
ou deixaria ainda mais só e a arder a boca incauta que o pronunciasse?

saio para a rua. já é noite. agasalho-me
pressinto uma galáxia a nascer no canto mais sujo desta rua escura. mas fujo dela.
acobardo-me. não sou diferente de todos os outros

mas haverá ainda quem a veja, quem a (d)escreva?
desvio finalmente o olhar

estugo o passo
porque nós vamos morrer
e caminhamos apressados
sem reparar que vamos morrer
já ali ao virar da esquina
mas o poema sonhado percorre outro caminho por nós
vagarosamente
ele sente toda a estranha beleza da vida, que nasce e se extingue simultaneamente
e por isso mesmo sabe que todas as coisas
peixe, arvore, nuvem, homem, mar
são exatamente uma e a mesma coisa

o poema não exclui, não espolia, não agride
ele recolhe essa sensibilidade inteligente de todo o ser vivente ou existente
como uma iguaria que se metaboliza num corpo que se forma
já não no corpo do texto mas na própria natureza imanente de Deus
Deus é um cão, é uma pedra, és tu meu amor



onde estaríamos nós se procurássemos Deus não numa Igreja ou numa Mesquita ou no sacrossanto altar do Deus Dinheiro mas sim numa pedra ou num cão? provavelmente seríamos sem donos, sem ganancia, sem limites, nem crueldade. seríamos mais Humanos.

domingo, 8 de dezembro de 2013

“Why'd you want to sing about sad things?" Candy had asked him. "Because any fool can be happy," he'd said to her. "It takes a man with real heart" —he'd made a fist and laid it against his chest— "to make beauty out of the stuff that makes us weep.” ― Clive Barker, Days of Magic, Nights of War

sábado, 30 de novembro de 2013

se a realidade fazemo-la assim tão estreita para onde ir então? se não há saída possível hj vou "abrir as portas da percepção" selar as feridas do meu coração...há sonhos, vidas atrás julguei ser possível tocar-te, lá onde mais ninguém tinha ido...mas foi tudo, é claro, apenas mais uma ilusão...

ter ou não ser...

Tu tens e julgas que és e eu não tenho e começo a acreditar que não valho nada porque sou como tu mas sem nada de meu comigo para me acompanhar, sou só eu e a minha solidão envergonhada. Mas qual de nós o mais só, tu que não me olhas ou eu que não sou olhado? estou tão sozinho como tu que passas e finges não me ver só para não te veres igual a mim...a única diferença está no ter e o que nos define enquanto sociedade é to have or not to be, right?...e por muito que tenhamos não somos nada se não soubermos ser uns com os outros. Assim não és diferente de mim, és tão ou mais miserável do que eu, por isso finges não me ver ao passares por mim...é o medo de descobrires que, apesar de todas as coisas que possuis (e que te vão possuindo), não passas, bem lá no fundo de ti, de mais um sem abrigo...

terça-feira, 26 de novembro de 2013

my candle

"My candle burns at both ends;
It will not last the night;
But ah, my foes, and oh, my friends--
It gives a lovely light!"

 Edna St. Vincent Millay