domingo, 26 de março de 2017

Não sabemos o que falar, o que fazer e no entanto fazemos e dizemos. Dizemos mais do que fazemos. Pouco importa o quê. O importante é dizer antes de morrer. Ah as sensações meu caro sempre tão imprecisas. E como exprimi-las? Elas atingem-nos agudas ou difusas. As portas abrem-se e perplexoso entramos na vida. Não sabemos se isto é sonho ou um pesadelo. Por isso dizemos. Porque enquanto dizemos não morremos. Existimos no olhar dos outros ou no que julgamos ver no olhar dos outros. Talvez sejamos apenas isso: impressões. Vagas. Tudo acontece num dado momento, num dado lugar. Só o pensar acontece de subito sem tempo ou lugar enquanto fazemos outra coisa qualquer. A vida passa. Nada fica da vida que passa. só a memória do quer o olhar dos outros nos fez sentir. Até não nos importarmos mais com ela porque já não confiamos mais nela. e é aí que começamos a perder a vontade de falar, de dizer. A memória é uma construção, escolhemos aquela que nos fica melhor. Os outros só nos importam na medida do olhar que nos reflectem e isso se nos interroga e nos espanta é que nos faz andar para a frente. Sabemos ser sonho ou ilusão ao olhar dos outros. Sabemos? E a musica pinta todos estes meus estados de espírito doentios talvez. E o que é a saúde senão um estado de contentamento consigo próprio? Haverá quem mais se ache assim, como eu?

Observo aquela mulher no café de gestos estudados e interessantíssimos de densidade zero tão parecida com aquela mulher minha irmã que aparenta ser uma artista na arte de nada fazer e tudo parecer. E que parece gozar dentro de si a convicção de toda uma suposta genialidade. Será isso a felicidade, essa convicção? Sinto sem querer essa ilusão. E entendo-lhe o sabor. Encaro-a por compaixão. Com paixão? Não consigo. E como queria. Isso enche-me de uma ternura abjecta. Sinto isso tudo talvez porque ela é afinal minha irmã. Reconheço-lhe a boca, os olhos o ouvido, o nariz. Criatura impossível, ridicula, agressivamente ridicula mas que no entanto já foi tão bonita. A mulher olha para mim e não me reconhece. Ponho os óculos e reconheço que apesar de muito parecida NÃO é ela a minha irmã. Mas é como se fosse. Há que amar e acima de tudo perdoar certas mulheres. A mulher no café sacode os cabelos, retoca o baton e esforça-se por parecer interessantíssima e por isso mesmo creio que se torna interessantíssima. E dentro de mim sorrio. Com que vergonha sorrio. Ontem, hoje amanhã sempre essa irmã, ou aquela mulher do café tão parecida de gestos cuidadosamente estudados. Tão cuidadosamente estudados que não tem sentido nenhum. É essa a sua arte. Que vazia e no entanto que maravilhosa arte essa afinal. A arte do (des)engano. E o que importa o que somos, senão o que pretendemos parecer com toda a força do nosso ser? Somos apenas o que parecemos? É inútil. Não existimos afinal senão pelo que aparentamos? Há que ser a beleza da mercadoria? A mercadoria perecível do ser. Com data e prazo de validade no rótulo. Como um yogurte que azeda. Como a alma destrambelhada. E o destrambelho cobre-se de muito verniz até um dia estalar. Sem nada mais do que aquilo que aparenta a alma assusta-se ao ver que afinal a arte é isto. O verniz que estala. O yogurte que azeda.O artificio que se desfaz. Frágil beleza que se cultiva com o creme anti idade, com a dieta alimentar, com o yoga, com a protecção masculina do pai e dos homens que vão passando na vida dessas mulheres. Oxalá eles nunca vos falhem minhas pobres e desgraçadas irmãs principalmente quando o espelho vos começar a falhar...como agora, ontem,amanhã como esse trágico final: o reflexo desse negro espelho que troça de todas as ilusões de beleza e revela uma patética máscara de ópera bufa. No meio destes pensamentos peço a conta e saio do café. Já não aguento mais.Não sei se é náusea ou tristeza o que me anima os passos. Mas saio. Preciso de ar e de ver gente bonita de verdade. Gente boa.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

livres dentro de prisões

Marx quis mudar o mundo, Baudelaire quis mudar a vida. as duas coisas não são assim tão diferentes pois n?...e eu só queria o que toda a gente quer...um lugar para onde ir quando a tempestade rebenta. mas esse lugar não existe. julguei encontra-lo na poesia. mas a poesia não me paga as contas. a poesia não poe comida na mesa, mas é a unica coisa que me faz sorrir. e imagino que assim não sou completamente escrava. suponho que ninguém o é enquanto tiver a sua própria voz. minto claro. a mentira acompanha sempre o medo. creio que não passamos de macacos demasiados ansiosos, com medo muito medo e por isso inventámos as religiões e o dinheiro para nos escravizar. saberíamos ser de facto livres? melhor brincar à liberdade dentro destas nossas prisões quotidianas com direito a folgas e dias de descanso.

falta fome. fome de poesia. de asas. de poesia nestes dias de prosa árida e sem ter onde ir grito ctg ó musa antiga minha querida Natália: "óh subalimentados do sonho a poesia é para se comer".

Thoughts from above hit the people down below People in this world, we have no place to go





domingo, 19 de julho de 2015

ser senão um sonhador

Eu nunca fiz senão sonhar. tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. e nunca pretendi ser senão um sonhador.
in, o livro do desassossego
 
 
 

quarta-feira, 4 de março de 2015

sempre suspeitei que n era deste planeta, decerto enganei-me no espaço e no tempo e todo o meu exercício de escrita foi sempre uma inútil tentativa de me procurar ou talvez de te encontrar. ou nem uma coisa nem outra apenas esta árida realidade gasta.

por vezes há portas e janelas abertas sobre outras portas e janelas por onde jamais ousamos olhar quanto mais entrar. a magia enquanto recusa daquilo que a realidade nos dá para enganar a fome e todos os dias zeros e infinitos a desdobrarem-se em mais zeros e infinito. o universo contido no perfeito e redondo ovo. o ovo dentro doutro ovo que está dentro doutro ovo e eu com a consciência aguda disso a tentar furar a casca e a não conseguir. a cabeça a rodopiar. olho para o céu e depois olho para o chão. céu e chão ambos a mesma coisa. mas cheia de nuvens na cabeça olho antes para o chão e reconforta-me ver as pedras na sua variedade de formas físicas e de texturas, a pedra não é como o ovo, não há uma pedra igual à outra, há nelas uma irregularidade reconfortante, onde me revejo, e depois apanho-as do chão, gostava de as poder arremessar contra o ovo ou contra a minha própria cabeça. mas não consigo pôr-me a distancia a fim de fazer pontaria contra mim mesma, assim pego nas pedras e gosto de lhes sentir o peso, as arestas, a sua textura de pedra informe na minha mão, afinal somos feitos da mesma matéria, eu, tu e as pedras todos filhos do mesmo pó universal. e é lá que te espero meu amor, sei que quando tudo o resto mais se extinguir e se calar nos voltaremos a reunir no silencio de que todas as pedras, montanhas, vales, nuvens, estrelas ou galáxias são feitas.


 
 
 
 

 

 

 
...mas de repente a morte colheu-o, inesperada, brutal...a morte que leva toda a gente sempre cedo demais, não importa a idade que se tenha, é sempre cedo demais.. a morte que evitamos a todo o custo mesmo quando viver custa tanto. a morte que dá-se a provar a toda a gente sem distinção e deixa um lugar vazio à mesa dentro do peito de quem ama.
 Com o passar do tempo os mortos vão-se acumulando e é ruidoso o seu silêncio porque nas nossas veias eles ainda correm e gritam tudo aquilo que ficou por dizer, por fazer. por isso importa cuidar de quem ainda respira,  tocar, deixar na pele a marca de um abraço, de um beijo. Porque nada dói mais do que o amor que não se fez em vida. por isso tira  máscara e respira...

(mas indiferente à comédia de enganos de que a vida humana é feita, a outra vida a biológica, a vegetal, base de toda a cadeia alimentar, essa vida alimenta-se da morte. a mãe terra sabe disso que o húmus alimento das plantas é feito de matéria orgânica decomposta, ou seja morta e por isso pronta a acolher nova vida. é preciso aceitar isso com naturalidade como quem aceita nascer e vem do nada e para o nada regressa. morrer para nascer, nascer para morrer, renascer uma e outra vez numa outra coisa qualquer, a vida sem a morte seria uma monstruosidade.)  

é por perdermos sorrisos e abraços ao longo da estrada, por sabermos que afinal  esta vida ridícula e pequenina é afinal tão valiosa, por sabermos que aquele rosto amado irá despedir-se de nós lá mais adiante, só por isso é que vale a pena esta vida que temos e só por isso é tão urgente vencer o medo, vencer a morte em vida e dizer-lhe de nós de peito aberto enquanto por cá andamos. porque o amor sem bravura, sem medo não é digno desse nome. porque cedo a noite chega e com ela o esquecimento de nós, dos outros, cedo iremos largar ancoras, largar as mãos, perder-nos-emos de vista. afinal a morte é somente não ser visto não é caro poeta? não seremos vistos nesta pele que nos acolhe por agora, provisoriamente, mas seremos noutro invólucro, noutra forma, noutro espaço-tempo qualquer reencontrar-nos-emos de preferência sem a consciência de ser que tanto dói. e se há alguma eternidade é nessa em que acredito. até lá, faz boa viagem meu amor. ill see you in another life when we're both cats...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

há um grão de luz a dançar no poema, nesse movimento há um texto costurado junto ao silencio do corpo a querer dizer aquilo que há tanto tempo aguarda ser dito. um texto de verdade a entrar pelo sexo adentro, a sair pela pele a dizer vem e a oferecer-se inteiro a sorrir para ti. o texto poético busca a linguagem do corpo e ousa dar-lhe sentidos novos, ele acima de tudo não se quer portar bem. o texto deita a língua de fora aos senhores respeitáveis e puxa as saias às senhoras donas de casa com princípios (mas sem olhar a meios para alcançar os fins). porque o poema não é uma puta. ele não se vende, não se compra, ele oferece-se à sua total (in)compreensão. ele é em certos dias de perfeita transparência atmosférica o mar que nos chama nas copas das árvores quando a brisa corre nos ramos e rebenta nos nossos ouvidos. "só para ouvir passar o vento já valeu a pena ter nascido" diz o poeta. ele é natural. não usa maquilhagem. só uma ternura que dói. um contemplativo estado de urgência. texto a rodopiar pelo ar. poema enlouquecido.

o poema é um planeta onde se pode viver e respirar bem fundo


mas o meu texto é árido
fala de um silencio quotidiano
(quantos gritos e renuncias haverá dentro dele?)
sai um clarão de entendimento para a mesa do fundo se faz favor?
(ali onde se apascenta, entre o queque e a bica escaldada, o demónio dos dias que passam)
se houvesse um nome capaz de explicar esta ausência com que povoamos os dias...
conseguiria ele conter tudo o que nos falta e fere
ou deixaria ainda mais só e a arder a boca incauta que o pronunciasse?

saio para a rua. já é noite. agasalho-me
pressinto uma galáxia a nascer no canto mais sujo desta rua escura. mas fujo dela.
acobardo-me. não sou diferente de todos os outros

mas haverá ainda quem a veja, quem a (d)escreva?
desvio finalmente o olhar

estugo o passo
porque nós vamos morrer
e caminhamos apressados
sem reparar que vamos morrer
já ali ao virar da esquina
mas o poema sonhado percorre outro caminho por nós
vagarosamente
ele sente toda a estranha beleza da vida, que nasce e se extingue simultaneamente
e por isso mesmo sabe que todas as coisas
peixe, arvore, nuvem, homem, mar
são exatamente uma e a mesma coisa

o poema não exclui, não espolia, não agride
ele recolhe essa sensibilidade inteligente de todo o ser vivente ou existente
como uma iguaria que se metaboliza num corpo que se forma
já não no corpo do texto mas na própria natureza imanente de Deus
Deus é um cão, é uma pedra, és tu meu amor



onde estaríamos nós se procurássemos Deus não numa Igreja ou numa Mesquita ou no sacrossanto altar do Deus Dinheiro mas sim numa pedra ou num cão? provavelmente seríamos sem donos, sem ganancia, sem limites, nem crueldade. seríamos mais Humanos.