quarta-feira, 4 de março de 2015

sempre suspeitei que n era deste planeta, decerto enganei-me no espaço e no tempo e todo o meu exercício de escrita foi sempre uma inútil tentativa de me procurar ou talvez de te encontrar. ou nem uma coisa nem outra apenas esta árida realidade gasta.

por vezes há portas e janelas abertas sobre outras portas e janelas por onde jamais ousamos olhar quanto mais entrar. a magia enquanto recusa daquilo que a realidade nos dá para enganar a fome e todos os dias zeros e infinitos a desdobrarem-se em mais zeros e infinito. o universo contido no perfeito e redondo ovo. o ovo dentro doutro ovo que está dentro doutro ovo e eu com a consciência aguda disso a tentar furar a casca e a não conseguir. a cabeça a rodopiar. olho para o céu e depois olho para o chão. céu e chão ambos a mesma coisa. mas cheia de nuvens na cabeça olho antes para o chão e reconforta-me ver as pedras na sua variedade de formas físicas e de texturas, a pedra não é como o ovo, não há uma pedra igual à outra, há nelas uma irregularidade reconfortante, onde me revejo, e depois apanho-as do chão, gostava de as poder arremessar contra o ovo ou contra a minha própria cabeça. mas não consigo pôr-me a distancia a fim de fazer pontaria contra mim mesma, assim pego nas pedras e gosto de lhes sentir o peso, as arestas, a sua textura de pedra informe na minha mão, afinal somos feitos da mesma matéria, eu, tu e as pedras todos filhos do mesmo pó universal. e é lá que te espero meu amor, sei que quando tudo o resto mais se extinguir e se calar nos voltaremos a reunir no silencio de que todas as pedras, montanhas, vales, nuvens, estrelas ou galáxias são feitas.


 
 
 
 

 

 

 
...mas de repente a morte colheu-o, inesperada, brutal...a morte que leva toda a gente sempre cedo demais, não importa a idade que se tenha, é sempre cedo demais.. a morte que evitamos a todo o custo mesmo quando viver custa tanto. a morte que dá-se a provar a toda a gente sem distinção e deixa um lugar vazio à mesa dentro do peito de quem ama.
 Com o passar do tempo os mortos vão-se acumulando e é ruidoso o seu silêncio porque nas nossas veias eles ainda correm e gritam tudo aquilo que ficou por dizer, por fazer. por isso importa cuidar de quem ainda respira,  tocar, deixar na pele a marca de um abraço, de um beijo. Porque nada dói mais do que o amor que não se fez em vida. por isso tira  máscara e respira...

(mas indiferente à comédia de enganos de que a vida humana é feita, a outra vida a biológica, a vegetal, base de toda a cadeia alimentar, essa vida alimenta-se da morte. a mãe terra sabe disso que o húmus alimento das plantas é feito de matéria orgânica decomposta, ou seja morta e por isso pronta a acolher nova vida. é preciso aceitar isso com naturalidade como quem aceita nascer e vem do nada e para o nada regressa. morrer para nascer, nascer para morrer, renascer uma e outra vez numa outra coisa qualquer, a vida sem a morte seria uma monstruosidade.)  

é por perdermos sorrisos e abraços ao longo da estrada, por sabermos que afinal  esta vida ridícula e pequenina é afinal tão valiosa, por sabermos que aquele rosto amado irá despedir-se de nós lá mais adiante, só por isso é que vale a pena esta vida que temos e só por isso é tão urgente vencer o medo, vencer a morte em vida e dizer-lhe de nós de peito aberto enquanto por cá andamos. porque o amor sem bravura, sem medo não é digno desse nome. porque cedo a noite chega e com ela o esquecimento de nós, dos outros, cedo iremos largar ancoras, largar as mãos, perder-nos-emos de vista. afinal a morte é somente não ser visto não é caro poeta? não seremos vistos nesta pele que nos acolhe por agora, provisoriamente, mas seremos noutro invólucro, noutra forma, noutro espaço-tempo qualquer reencontrar-nos-emos de preferência sem a consciência de ser que tanto dói. e se há alguma eternidade é nessa em que acredito. até lá, faz boa viagem meu amor. ill see you in another life when we're both cats...