sábado, 9 de agosto de 2014

ele escrevia poemas. todo o rapaz triste escreve poemas, era isso ou ver pornografia, compulsivamente. por isso ele escolheu escrever poemas sem pés nem cabeça, porque era assim que ele fazia mais sentido. o rapaz escrevia poemas que mais ninguém lia e abria a caligrafia um pouco mais e desenhava. os desenhos são as palavras escritas de uma outra maneira. ele desenhava a sua própria solidão encostada aos dias que escorriam, como chuva, 1º lentamente, dps muito depressa e quando deu por si já n era mais um rapaz e já n havia mais nada a escrever ou a desenhar ou sequer a dizer. e como dizer a beleza e a sua angustia?

a beleza ou visões dela irrompiam-lhe plo quotidiano adentro interrompendo-o, desarranjando-o, mais vivas e reais do que tudo o que o rodeava. ele pensava por imagens e conseguia ouvi-las traduzidas nos seus desenhos e apertando-as um pouco mais reduzia-as à sua caligrafia, só para dps amarrotar as palavras e deita-las fora, como fizera até hoje à sua vida, porque mais ninguém o entenderia se ele próprio o não conseguia. E como entender o seu corpo, esse saco de desejos com alma por dentro, desencontrada de tudo o resto? Foi ao médico e receitaram-lhe medicamentos para a sua vida, seria uma vida de poeta docilmente calada e curvada ao funcionalismo pratico dos dias, por ser mais fácil de levar, de lidar com o dia a dia sem a ansia excessiva dos seus desesperos exaltantes, até que deixou de escrever, de desenhar, de sonhar, a normalidade finalmente restabelecida. O desespero entorpecido, amansado, domesticado.

O homem organiza o tempo circularmente, as horas para acordar, comer, trabalhar, (e se tudo correr bem as vezes horas para fazer sexo disfarçado duma outra coisa qualquer) e depois dormir, comer trabalhar e repetir tudo no dia a seguir 2ª, 3ª feira, até chegar sábado e domingo, (onde tudo se repete excepto o trabalhar ) o eterno retorno reduzido á banalidade dos dias que nos dão segurança e por isso morre-se ás vezes em vida sem se dar por isso.  Não é que se sinta menos as dores de alma, mas elas vão se gerindo melhor assim caladas a comer-nos por dentro, como quem suporta as dores do corpo, que é o que dói mais quando a alma não está bem.

O caminho que tomaste é este, define-te. Mas podia ter sido aquele, lembras-te? O da rapariga de olhos tristes que viste naquele fim de tarde no comboio de livro aberto no regaço e cabeça encostada na janela, que parecia sonhar alto como tu. Reconheceste-te na sua tristeza ou reconheceste-a na tua própria tristeza? Por uns breves momentos ela também olhou para ti...e viu-se...

Ela era como uma queda para um abismo antigo, olhar para ele abismo ou ela rapariga como que o(s) salvava e lhe(s) dava momentaneamente uma razão para viver. ela era ele. era como um qualquer apogeu de beleza, ou de bem estar que doía docemente na alma e o(s) fazia cair em si. um no outro. Se pudesse cristalizar numa qualquer imagem toda a verdade e fragilidade inquietante dessa beleza seria somente registando esse rosto e ele tirou, algo atabalhoadamente, da sua pastinha uma folha e começou a desenhar cheio de urgência no olhar e nos gestos, antes que lhe fugissem os contornos do rosto dela, afinal da sua própria alma. Mas ao desenhar subitamente começou a sentir sobre si todo o peso dos outros, do olhar reprovador seguido do riso escarninho do mundo pratico do dia a dia a corromper aquela beleza toda ali exposta como uma mancha, uma falha imperdoável no meio dos papeis do trabalho. o desenho saiu-lhe por isso imperfeito, ao lado, corroído pelo medo da censura dos outros. já os conhecia tão bem como se fosse até uma segunda pele que sabia antes deles todos como iriam pensar, reagir, quase como se fosse ele próprio a pensar e a reagir por eles. mas quando atinges esse ponto só pode significar uma coisa: estás a tornar-te num deles, à força de te anulares. Só podes fazer uma coisa rapaz, antes de te tornares também tu razoável, realista e mesquinho: mata-te, sim mata-te. A rapariga essa saiu na estação seguinte e perderam-se de vista um do outro no meio da multidão. Nunca mais a viu. nunca mais se viu.

Os dias no escritório decorriam na mais perfeita normalidade. como todos os que tinham vindo antes e os que viriam depois. afinal desde que tu finjas bem ninguém se importa verdadeiramente com o que tu sentes e o ex rapaz poeta uma noite chegou a casa e não foi comer, nem deitar-se nem dormir para acordar no outro dia e repetir ad eternum ad nauseam  td de novo, com pequenos intervalos de nada, fins de semana e folgas, só para se repetir um bocadinho menos e cansar-se um bocadinho mais. "A perfeição felizmente é inatingível" pensou ao olhar para o seu rascunho tão tosco do rosto da rapariga do comboio que guardava religiosamente dentro duma gaveta. Mas nessa mesma noite voltou a abrir a gaveta, a pegar no lápis e no papel e desenhou no verso do desenho da rapariga uma pistola, o seu mais belo e perfeito desenho de sempre, uma pistola carregada de realismo e de balas, pronta a disparar. Apontou o desenho à cabeça

A vizinhança acordou a meio da noite com uns 3 disparos secos e estrondosos e a polícia muito naturalmente apareceu. O barulho vinha claramente do seu apartamento. ou plo menos foi o que a Dona Dolores do 3º esquerdo, aquela que sofre do coração disse ao chamar a policia. Bateram a sua porta e como ninguém atendeu arrombaram-na. Encontraram-no esvaído em sangue caído de bruços sobre a mesa em cima duma folha amarrotada. No seu rosto um sorriso espantado. A arma do crime, essa nunca foi encontrada.