sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

graceless

a vida é pura agonia. n há como mascarar isso. e toda a minha escrita é uma estupida e inútil tentativa de dar algum sentido ao tempo que passa.



sexta-feira, 17 de outubro de 2014

as palavras abrem espaço para os gestos que n fizemos e que nos assombram os instantes. elas estão nos poros ou nas frinchas da pele à espera do momento de saltarem cá para fora em busca do oásis do entendimento que tarda em chegar ou talvez nunca chegue. e é quase uma palavra-gesto, quase nos tocamos, mas no fim agarrámos apenas a nossa ausência. Quisemos tanto mas fomos tão pouco. Que importância tinham afinal os nossos sonhos?  O futuro vejo-o agora é uma criança descalça e em farrapos a quem ninguém liga. A partir do deserto sobe um silencio cheio de barulho por dentro que usamos para preencher o vazio dos dias e fingir que está tudo bem. A alma essa está cansada mas o corpo não lhe obedece. ele quer sempre viver, comer, respirar, sentir, tem sede, tem fome de tocar mesmo quando a alma falha miseravelmente o alvo. mas de cansaço em cansaço não será o corpo a ter a ultima palavra sobre o que resta de nós.
 


sábado, 9 de agosto de 2014

ele escrevia poemas. todo o rapaz triste escreve poemas, era isso ou ver pornografia, compulsivamente. por isso ele escolheu escrever poemas sem pés nem cabeça, porque era assim que ele fazia mais sentido. o rapaz escrevia poemas que mais ninguém lia e abria a caligrafia um pouco mais e desenhava. os desenhos são as palavras escritas de uma outra maneira. ele desenhava a sua própria solidão encostada aos dias que escorriam, como chuva, 1º lentamente, dps muito depressa e quando deu por si já n era mais um rapaz e já n havia mais nada a escrever ou a desenhar ou sequer a dizer. e como dizer a beleza e a sua angustia?

a beleza ou visões dela irrompiam-lhe plo quotidiano adentro interrompendo-o, desarranjando-o, mais vivas e reais do que tudo o que o rodeava. ele pensava por imagens e conseguia ouvi-las traduzidas nos seus desenhos e apertando-as um pouco mais reduzia-as à sua caligrafia, só para dps amarrotar as palavras e deita-las fora, como fizera até hoje à sua vida, porque mais ninguém o entenderia se ele próprio o não conseguia. E como entender o seu corpo, esse saco de desejos com alma por dentro, desencontrada de tudo o resto? Foi ao médico e receitaram-lhe medicamentos para a sua vida, seria uma vida de poeta docilmente calada e curvada ao funcionalismo pratico dos dias, por ser mais fácil de levar, de lidar com o dia a dia sem a ansia excessiva dos seus desesperos exaltantes, até que deixou de escrever, de desenhar, de sonhar, a normalidade finalmente restabelecida. O desespero entorpecido, amansado, domesticado.

O homem organiza o tempo circularmente, as horas para acordar, comer, trabalhar, (e se tudo correr bem as vezes horas para fazer sexo disfarçado duma outra coisa qualquer) e depois dormir, comer trabalhar e repetir tudo no dia a seguir 2ª, 3ª feira, até chegar sábado e domingo, (onde tudo se repete excepto o trabalhar ) o eterno retorno reduzido á banalidade dos dias que nos dão segurança e por isso morre-se ás vezes em vida sem se dar por isso.  Não é que se sinta menos as dores de alma, mas elas vão se gerindo melhor assim caladas a comer-nos por dentro, como quem suporta as dores do corpo, que é o que dói mais quando a alma não está bem.

O caminho que tomaste é este, define-te. Mas podia ter sido aquele, lembras-te? O da rapariga de olhos tristes que viste naquele fim de tarde no comboio de livro aberto no regaço e cabeça encostada na janela, que parecia sonhar alto como tu. Reconheceste-te na sua tristeza ou reconheceste-a na tua própria tristeza? Por uns breves momentos ela também olhou para ti...e viu-se...

Ela era como uma queda para um abismo antigo, olhar para ele abismo ou ela rapariga como que o(s) salvava e lhe(s) dava momentaneamente uma razão para viver. ela era ele. era como um qualquer apogeu de beleza, ou de bem estar que doía docemente na alma e o(s) fazia cair em si. um no outro. Se pudesse cristalizar numa qualquer imagem toda a verdade e fragilidade inquietante dessa beleza seria somente registando esse rosto e ele tirou, algo atabalhoadamente, da sua pastinha uma folha e começou a desenhar cheio de urgência no olhar e nos gestos, antes que lhe fugissem os contornos do rosto dela, afinal da sua própria alma. Mas ao desenhar subitamente começou a sentir sobre si todo o peso dos outros, do olhar reprovador seguido do riso escarninho do mundo pratico do dia a dia a corromper aquela beleza toda ali exposta como uma mancha, uma falha imperdoável no meio dos papeis do trabalho. o desenho saiu-lhe por isso imperfeito, ao lado, corroído pelo medo da censura dos outros. já os conhecia tão bem como se fosse até uma segunda pele que sabia antes deles todos como iriam pensar, reagir, quase como se fosse ele próprio a pensar e a reagir por eles. mas quando atinges esse ponto só pode significar uma coisa: estás a tornar-te num deles, à força de te anulares. Só podes fazer uma coisa rapaz, antes de te tornares também tu razoável, realista e mesquinho: mata-te, sim mata-te. A rapariga essa saiu na estação seguinte e perderam-se de vista um do outro no meio da multidão. Nunca mais a viu. nunca mais se viu.

Os dias no escritório decorriam na mais perfeita normalidade. como todos os que tinham vindo antes e os que viriam depois. afinal desde que tu finjas bem ninguém se importa verdadeiramente com o que tu sentes e o ex rapaz poeta uma noite chegou a casa e não foi comer, nem deitar-se nem dormir para acordar no outro dia e repetir ad eternum ad nauseam  td de novo, com pequenos intervalos de nada, fins de semana e folgas, só para se repetir um bocadinho menos e cansar-se um bocadinho mais. "A perfeição felizmente é inatingível" pensou ao olhar para o seu rascunho tão tosco do rosto da rapariga do comboio que guardava religiosamente dentro duma gaveta. Mas nessa mesma noite voltou a abrir a gaveta, a pegar no lápis e no papel e desenhou no verso do desenho da rapariga uma pistola, o seu mais belo e perfeito desenho de sempre, uma pistola carregada de realismo e de balas, pronta a disparar. Apontou o desenho à cabeça

A vizinhança acordou a meio da noite com uns 3 disparos secos e estrondosos e a polícia muito naturalmente apareceu. O barulho vinha claramente do seu apartamento. ou plo menos foi o que a Dona Dolores do 3º esquerdo, aquela que sofre do coração disse ao chamar a policia. Bateram a sua porta e como ninguém atendeu arrombaram-na. Encontraram-no esvaído em sangue caído de bruços sobre a mesa em cima duma folha amarrotada. No seu rosto um sorriso espantado. A arma do crime, essa nunca foi encontrada.

sábado, 14 de junho de 2014

Sing to the moon



"Sing to the moon and the stars will shine
Over you, lead you to the other side."

Mar de Lua Cheia

A vida ou a ilusão que alimentamos para disfarçar o cansaço de todas as horas inúteis. somos irreconciliáveis com o mundo e com toda a sua loucura e melancolia. Mas vamos enganando a fome de impossíveis com migalhas de alegria à beira mar dessa lua dançarina, deixando um rasto de poalha de prata sobre nós. Aqui somos parte daquilo que nos rodeia, somos o próprio mar que nos vem lamber os pés docemente.  E deitamo-nos no areal, fechamos os olhos e abrimo-nos para dentro.

Sonha-se com toda a força, sem saber o que mais fazer com a vida.  

quarta-feira, 7 de maio de 2014

The Dream

escrevo-te a meio da noite
quando a solidão mais dói
para te encontrar
para erigir a nossa casa

o nosso mundo
fora do mundo

as palavras procuram fazer coincidir corpo com ausência
distancia trazida aqui e agora á minha presença

queria escrever como quem ama
como quem grita
a matéria em desordem
à procura dum espaço e sentido
mas o que eu digo vale pouco mais do que o silencio
prenuncio do fim
porque a boca estremece com aquilo que não diz
o corpo apodrece com aquilo que não faz

Ouve-me por dentro da minha ruidosa confusão estás tu também
por tudo aquilo que adivinho em ti
Eu sei do medo que te corta as asas
eu também o sinto a rugir em ti
ao escrever-te eu escuto a cor daquilo que tu recusas
mas que sonhas com tanta força
numa exaltação de asas cortadas
e eu já nada posso dizer ou fazer
que nos possa salvar da queda
o Sonho é afinal tao fácil de quebrar
ambos ficamos do lado de fora
mortos do lado de dentro

as palavras nascem para ser tocadas
para baterem asas na língua voluptuosa do dia
e dizerem tudo aquilo que se cala

com uma rajada de palavras queria atravessar-te a alma

mas nunca soube ser mais do que uma violência de abismos

incomunicável

"but everyday we wait for the time we wake up to the dream"...but cant you see it? we are the dream...and i'm slowly disappearing...so wake up...


quarta-feira, 23 de abril de 2014

poeta disfuncional e fora de horas


Mesmo não te compreendendo abre paisagens dentro de ti , intensifica-te, (d) escreve-te como és, violenta(o) e doce, transmuta-te em algo impossível de categorizar, de apreender na ânsia que todos temos de nos arrumar uns aos outros ao canto das palavras e dos dias rotineiros, etiquetas, verdades ou mentiras que colocamos nas testas uns dos outros e que usamos para não defraudar o que os outros e nós próprios pensamos de nós. e por assim ser mais fácil viver. O sentido da vida é a morte nunca te esqueças disso.  por isso somos um barco incendiado sem norte nesta travessia sem retorno rumo ao Nada. somos janelas estilhaçadas desatentas ao sonho que nos poderia guiar, janelas abertas para o silencio maior que nos cega.  Por isso nunca percas de vista o teu sonho, ele  é o teu farol de luz na noite mais escura. Ouve-o, é o teu poeta interior, aquele que escreve o que não tem voz, ou seja tu próprio afinal impronunciável, porque só o que não pode ser contado vale a pena ser contado...o poeta subverte, experimenta, caminha em direcção ao abismo e oferece-lhe abrigo e a parte mais tenra do corpo antes de se despenhar nele, porque sabe que a solidão não tem remédio e o frio jamais se aquece. no fundo de todas as coisas ele insiste em encontrar sentido para o que não tem sentido e abre as mãos e delas saem imagens puras recolhidas nos recantos das ruas mais sujas só para te acariciarem agora numa noite sem sono. ele é os pés de quem andou descalço e se feriu e por isso sabe o quanto te custa andar, ele o grande trôpego, que cai e se levanta só para cair de novo nos mesmos líricos buracos, velho adolescente incoerente de braços que doem ao abraçar de tanto querer conter o amor impossível que se escapa por entre os dedos, miragem que nos incendeia e nos afasta irremediavelmente uns dos outros, porque somos criaturas com uma fome, com uma ansia de beleza que nunca se sacia, ébrios de vertigens prontos a desabar em paisagens de palavras musicais rente ao peito (hey diz-me de que cor é a tua musica preferida para embalar os teus demónios que nunca adormecem) imaginando encontrar do outro lado do sonho quem sabe alguém gémeo no sentir...mas não nos procures à "hora do expediente", a essa hora não estará la ninguém para te acolher caro poeta, entretidos que todos estamos a viver no lado funcional e "funcionário" da vida... 

quarta-feira, 16 de abril de 2014



"Please put me to bed
and turn down the light

Fold down your hands
Give me a sign
Hooked on your lies

Lay down next to me
Don't listen when I scream
Bury your doubts and fall asleep
Find out....I was just a bad dream

Let the bed sheet
Soak up my tears
And watch the only way out
disappear
Don't tell me why
Kiss me goodbye

For neither ever, nor never
Goodbye
Neither ever, nor never
Goodbye
Neither ever, nor never
Goodbye
Goodbye"

faladores com o insignificante e calados com o que nos assusta

" Somos sempre muito faladores com o insignificante e muito calados com o que nos assusta. Assusta-nos o íntimo das nossas vidas, por passarmos por todas as portas sem pensar que elas se fecham para sempre atrás de nós. Não podemos voltar atrás para compor o inacabado ou as palavras soltas, ou o que faltou..." augustina Bessa Luís

Escape

"Aparece-me...
Ajuda-me a existir
Ajuda-me a existir" Octávio Paz

Ajuda-me a existir. ajuda-me a resistir a toda esta melancolia que vai-me quebrando a pouco a pouco. eu que nunca soube ouvir o doce grito da tua alma junto ao silencio do teu corpo distraída que estava a procurar sentidos onde não os havia. agora na tua ausência sei que saberia finalmente escutar-te porque agora esse grito sou eu...sim agora sei o que sentiste...

"Now i know how you felt
 Now i know how you felt"

so please forgive me...



sábado, 5 de abril de 2014

i miss you...



i'm fading away. i'm sick of wanting too much. in the centre of the universe there was always you my dear, i thought i could find you in somebody else...i guess i was wrong...and i really miss you

quarta-feira, 2 de abril de 2014

o que era tão importante afinal escapou-se-nos, breve breve roçar de asas, ou folhas trazidas pla chuva e plo vento a voar por cima daquilo que fomos...as horas essas vão-nos comendo o corpo, célula a célula, lentamente, só o sonho, só esse permanece intacto dentro do coração

Black Water



"deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis, vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo. sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.
(...)
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou.
não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas...e nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias."

Al-Berto
Horto de Incêndio

domingo, 30 de março de 2014

'Til single spark ignites it



"Your head's
a busy place
A port for
thoughts coming back
Like ships flown
overseas
While swarms of birds
passing by

If I could
catch a thought sometime
I'd put it
in a safe place
To the elements
I've got
And next time I would check
it would be gone

'Til single spark ignites it
to new light
'Til single spark ignites it
to new light
'Til single spark ignites it
to new light
And it comes back to you;
finally getting through

Your heart's
a messy place
A giant
garbage dump
for all the feelings
you can't handle
That's where you
bury all of them
and wait 'til they decay

'Til single spark ignites them
to new light
'Til single spark ignites them
to new light
'Til single spark ignites them
to new light
And they come back to you;
finally getting through" Apparat

domingo, 23 de março de 2014

Entre o que vejo e o que digo

"Entre o que vejo e o que digo,
entre o que digo e o que calo,
entre o que calo e o que sonho,
entre o que sonho e o que esqueço,
a poesia.

Desliza
entre o sim e o não:
diz
o que calo,
cala
o que digo,
sonha
o que esqueço.

Não é um dizer:
é um fazer.
É um fazer
que é um dizer.

A poesia
se diz e se ouve:
é real.
E, apenas digo
é real,
se dissipa.
Será assim mais real?

Ideia palpável,
palavra
impalpável:
a poesia
vai e vem
entre o que é
e o que não é.
Tece reflexos
e os destece.

A poesia
semeia olhos na página,
semeia palavras nos olhos.

Os olhos falam,
as palavras olham,
os olhares pensam.

Ouvir
os pensamentos,
ver
o que dizemos,
tocar
o corpo da ideia.
Os olhos
se fecham,
as palavras se abrem. "


Octavio Paz

the woman and the sea

De todas as solidões, a mais dura era aquela que ela suportava na companhia dele. Abria a boca e o silencio era ensurdecedor, não se ouviam, partilhavam vazios e conversas mudas. Pressentia que o mais importante ficaria para sempre preso na garganta e que as palavras servem apenas para preencher silêncios ou para ilustrar o acessório e o banal. O essencial, o que realmente os revelaria em toda a sua luz ficaria eternamente na sombra entre aquilo que dizem e aquilo que afinal queriam dizer. E nunca chegarão a dizer-se um ao outro por não se ter ainda inventado as palavras que os descreveriam em toda a sua singular autenticidade, em toda a sua incomunicável fragilidade. E no entanto ainda hoje estão fisicamente juntos e insistem em abrir a boca e falar de costas voltadas um para o outro. Não aguentariam viver doutra maneira, sem esse ruido de fundo para os entreter, para os acompanhar ou talvez para se enganarem melhor...os amigos nem suspeitam e invejam-lhes a relação duradoira e dizem até que eles são o casal perfeito. Às vezes à força de tanto fingir ela chega a acreditar que sim que são muito felizes. Ele também. E até planeiam, um dia destes, fazer um filho para a felicidade ser completa. Mas ao final da tarde, antes de ele chegar a casa, ela as vezes pega no carro e conduz até ao mar. Ela olha para o mar e o mar parece falar-lhe numa linguagem só deles, ela entende-se com ele. Ali ela não se sente tão só e pode finalmente respirar...

sábado, 22 de março de 2014



corpos colisões labirintos
altas combustões
onde incendiávamos todo um universo
até entrarmos deslumbrados
dentro da pele um do outro

éramos a nossa própria casa a pulsar nas veias insondáveis aonde a coisa amada tinha o poder de criar ou destruir mundos, aonde eu e tu nos fundíamos num só amplexo solar. éramos tudo o que precisávamos e não sabíamos da morte fria e obsessiva das pálpebras depois de nós...

agora despeço-me de nós um pouco mais distantes a cada dia que passa
com o seu novelo interminável de pequenos nadas que me cansam até à náusea...

já não sei em que parte de mim te aguardar
onde mais te procurar...onde mais me encontrar...

e há um frio que não se aquece...aqui onde o coração arrefece...








dentro

I'll keep holding on...

"I'll keep holding on, holding, holding, holding...that's all i have today
It's all i have to say"



sexta-feira, 21 de março de 2014



deixo as horas passar, trago dentro de mim vertigens, rumores de mundos ao avesso que não me levam a lado algum senão em círculos cada vez mais fechados, apertados, sítios por onde passei em sonho ou em pessoa e ressoam desvarios vários. como o teu sorriso-abismo, adentrando-se fundo em mim a engolir-me inteira. o teu sorriso (ou o que resta dele contaminado, deturpado na minha memória excessiva) ele fere-me e não há nada que possa viver, fazer, imaginar para o tirar daqui. queria-te despejar, erradicar-te de mim mas tudo isto ultrapassa-me e parte-me em mil cacos inúteis. Já não sei o que fazer, irrompes em tudo o que faço, tropeço em ti nas coisas, os gestos deixados a meio cada vez mais desadequada e alheia ao quotidiano. Oiço as pessoas e parecem-me bonecos a abrir e fechar bocas, corpos sem alma, vazios porque quis-me encher de ti até as ultimas consequências e assim esvaziei tudo o que depois de ti me aconteceu. até tu já não seres tu de tanto te preencher na tua ausência. quando chegaste eras afinal tão pequenino, sem poesia. soubeste-me a pouco. ninguém pode chegar à altura da ideia que fiz de ti nem mesmo tu...sinto cada vez mais expressões, sentimentos gastos em tudo o que me rodeia, parece que as vezes quero dizer qualquer coisa importante mas nada sai, tudo o que toco desfaz-se em desilusão e no fundo não há grande coisa para dizer, é uma questão de ir aguentando, enterro a cabeça entre as mãos e aguento um pouco mais, um pouco mais um pouco mais um pouco mais...

quinta-feira, 13 de março de 2014

"Art is the highest form of hope." Gerhard Richter

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Magnified Love

"I'm done for
I give up
Surrender my physical mood
You make me walk blindly
Right out of my comforthood

You stroke me
You strike me
As someone who is in control
You eat me
You feed me
You nourish my hungry soul,
Hungry soul

Oh my, oh my, oh my magnified love

You push me
You shove me
You move me every minute
You move me
You shove me
You move every cell in my body
In my body

You own me
Physically
Possessing me spiritually

Oh my, oh my, oh my magnified love" Gus Gus


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Soon this space will be too small...

"When we are conceived, we appear in our mother’s womb like a little tiny light, suspended in the immense space. And there is no sound – it’s completely dark and time doesn’t seem to exist. It’s like an ocean of darkness.
Then, we grow. And we keep growing and growing and as we grow, slowly we begin to feel things, touch things. We touch the walls of our world that we’re living in. Then we begin to hear sounds and feel shocks that come to us from outside.
As we get bigger & bigger, the distance between ourselves and that outside world becomes smaller and smaller. And…this world that we are inside which seems so huge in the beginning and so infinitely welcoming has becoming very uncomfortable. We are obliged to be born.
Birth is so chaotic and violent that at the moment of our births, we’re all thinking, “This is it – this is death. This is the end of my life.” Then we’re born and it’s a huge surprise because it’s just the beginning. In the beginning we’re very small – the world seems infinitely big. Time seems infinitely long. And we keep on growing, learning how to use our senses, how to touch the contours of the world that we’re in.
Sometimes, mixed in with the sounds and sensations of this world we live in, we hear sounds and feel shocks that come from yet another world. And that other world follows us our whole lives long. As if – something is happening, just on the other side of a very, very thin wall separating us from that other world, much like the womb. But we can forget about it for a long time – sometimes our whole lives – until all of a sudden it comes again.
At the end of our lives, we’re obliged to die. At that point, then, we think we’re really smart. And we think, “This time. I know for sure that this is death. That this is the end. Everybody knows that.” That’s not the end, though…it’s just…the beginning of something else." Lhasa de Sela

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Deep inside...




"When You opened my heart I was thrown
Deep into the Milky Way
The adrenaline rush that I got from the crush blew me away
Opened doors, opened wide, deep inside
You rose in a certain way
I could feel how You grew and I knew
You would steal my heart away

Deep inside, deep inside
Why did you just steal my heart and go
Deep inside, deep and tight
My teeth are sore on your front door
I'm dry, i'm dry, i'm dry, i'm dry
Deep inside the Milky Way

Now I'm pushed and i'm pulled
I feel flushed
I'm completely out of place
And the blood that was boiling with lust
Now is frozen in my veins
I am stuck in a rut with the thought
When my life was swept away
How cathartic when my heart exploded
Inside the Milky Way

Deep inside, deep inside
Why did You just steal my heart and go
Deep inside, deep and tight
My teeth are sore on your front door
I'm dry, I'm dry, I'm dry, I'm dry
Deep inside the Milky Way"
and the funny silly alien gets tired of wanting it all so damn much, didn't you already realized you're in earth? go away stupid creature or get used to it...


Get lost you make me sick...

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O espirito nao se manifesta no vazio, eu quero a carne que o espírito tem. Jesus foi cruxificado, castigar a carne para punir o espírito não é essa a lógica judaico-cristã?...mas eu não te quero punir, isso é o que a vida está encarregue de nos fazer a todos, eu quero glorificar-te, enquanto por aqui andar através do corpo vou encontrar o nosso lado divino e que dura o estrito tempo de uma vida, ridiculamente finita, banal, vou dar sentido ao nosso quotidiano nada, reconhecer a transcendência que há em nós, por isso mostra-me as entranhas da tua alma por favor. Seremos excessivos mas nunca insuficientes...



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Writing

                                               
"Writing                                                  
often it is the only
thing
between you and                                           
impossibility.
no drink,                                                                                        
no woman's love,
no wealth
can
match it.
nothing can save
you
except
writing.
it keeps the walls
from
failing.
the hordes from
closing in.
it blasts the
darkness.
writing is the
ultimate
psychiatrist,
the kindliest
god of all the
gods.
writing stalks
death.
it knows no
quit.
and writing
laughs
at itself,                                                 
at pain.
it is the last
expectation,
the last
explanation.
that's
what it
is."
 
 by Charles Bukowski

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

"so bright the flames in our hearts"


O amor é prepararmo-nos para o pior, para a despedida e ainda assim insistir na fusão das vidas, dos corpos ou daquela substancia imprecisa, sacana, chamada de alma, o amor dói plo lado do fim que se anuncia de cada vez que nos tocamos, porque sabemos que vamos acabar mais adiante. É inevitável que assim seja, no amor, não há parto sem dor, principio sem o lado do fim, encontro sem perda, prazer sem dor. Amar é lutar contra a morte e é também a própria morte. Mas nem por isso deixamos de morrer nos braços uns dos outros, de nos adentrar nos abismos que escavamos. Somos mais vivos do que nunca quando inteiros ali no momento coincidentes, corpo e alma, um dentro do outro, na con( fusão ) das   pernas, braços, sexos, bocas, até não sabermos mais onde começa um e acaba o outro, somos incêndios a  lavrar pela pele e damo-nos a beber em suor, tocamo-nos, trocamo-nos e ali no momento do prazer condensamos num único espasmo todo o universo.
 
 
 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

We are constantly searching for experiences, people who can feel us, but i can only take one breath at a time, i cant breathe for you or heal me for you, however i can heal ouserlves in silence, each breath a new beginning for us, right here, no resentment, no judgment, no pursuing, no chasing away, just this breath and how i carry myself, moment by moment, without our stories and emotions that i find out so difficult to deal, our sad story so limited, inacurate...i'm sure you're fine right now somehow, somewhere, and whoever you may be with, i hope you'll find peace...

SO DO YOU THINK POEMS ARE ABOUT YOU? YES THEY ARE, THE BEST ONES ARE…


Do que é que tu achas que os poemas são feitos? Os poemas são feitos de luz e sombra, prazer e dor e todas essas contradições que definem a nossa incomunicabilidade toda. Os poemas são sobre essa fragilidade, esse indizível amor insano, o poema é feito de excessos de ex sexos, o poema não é bonitinho, nem agradávelzinho nem acaricia a porra nenhuma d’alma de ninguém. o poema é feito para inquietar, para doer, para afinal matar. O poema é como quem ama e quem ama morre um pouco ou até mesmo muito. Porque só quem ama sabe do verdadeiro desconforto que é amar e viver assim tudo ao mesmo tempo. Escreve ou lê um poema que te destrua, só para que depois, no local das tuas próprias ruinas, consigas abrir um espaço, dentro de ti, onde respires um pouco mais leve e limpo.

for You


"when you left you took almost everything. I kneel in the nights before tigers that will not let me be. what you were will not happen again. the tigers have found me and i do not care."      Charles Bukowski

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

from an alien to another :)

"Eu costumava pensar que eu era a pessoa mais estranha do mundo, mas há tanta gente no mundo, deve haver alguém que também se sinta estranha e desadequada da mesma forma que eu me sinto. Eu imagino que essa pessoa deva estar lá fora pensando algo idêntico ao que eu penso também. Bem, espero que, se tu estiveres por aí a ler-me, saibas que sim, é verdade, eu estou aqui e sou tão estranha quanto tu pensas que és também." E talvez não sejamos assim tão estranhos um ao outro...

- tradução e adaptação minha dum texto do diário da Frida Kahlo essa maravilhosa alien

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Há Palavras que nos Beijam...


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Disorder



"I've been waiting for a guide to come and take me by the hand,
Could these sensations make me feel the pleasures of a normal man?
These sensations barely interest me for another day,
I've got the spirit, lose the feeling, take the shock away.

It's getting faster, moving faster now, it's getting out of hand,
On the tenth floor, down the back stairs, it's a no man's land,
Lights are flashing, cars are crashing, getting frequent now,
I've got the spirit, lose the feeling, let it out somehow.

What means to you, what means to me, and we will meet again,
I'm watching you, I'm watching her, I'll take no pity from you friends,
Who is right, who can tell, and who gives a damn right now,
Until the spirit new sensation takes hold, then you know,
Until the spirit new sensation takes hold, then you know,
Until the spirit new sensation takes hold, then you know,
I've got the spirit, but lose the feeling,
I've got the spirit, but lose the feeling,
Feeling, feeling, feeling, feeling, feeling, feeling, feeling."

- Joy Division

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Somos um poço fitando o Céu

"Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos — um poço fitando o Céu." Fernando Pessoa
"Um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não pensar." Fernando Pessoa

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Sometimes...

“Sometimes, i sit alone under the stars and think of the galaxies inside my heart, and truly wonder if anyone will ever want to make sense of all that  i am.”
                                             - Christopher Poindexter
                                                   

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Sleep now...

now that the drowned dawn approaches, slather your body in the murky waters of memory, you can't no longer distinguish your dreams from what you lived, can you?...just rest you body and keep on dreaming a little more, till your soul cant take it no more and drifts away...but untill then enjoy your ride...and gently close your eyes please...


desabafo alienigena

...onde quer que tu tenhas ido tu foste sem necessidade de passaporte e de dinheiro, tu só foste através daquilo que sentiste...é essa a tua maneira de viajar...sentindo...por vezes há uma vontade tão grande de partir por dentro do sonho onde tudo se cheira, toca e se prova com muito mais intensidade e verdade...e de nunca mais voltar para estes dias terráqueos cada vez mais cinzentos e difíceis de suportar...

domingo, 19 de janeiro de 2014

You are a horse running alone...



“you are a horse running alone
and he tries to tame you
compares you to an impossible highway
to a burning house
says you are blinding him
that he could never leave you
forget you
want anything but you
you dizzy him, you are unbearable
every woman before or after you
is doused in your name
you fill his mouth
his teeth ache with memory of taste
his body just a long shadow seeking yours
but you are always too intense
frightening in the way you want him
unashamed and sacrificial
he tells you that no man can live up to the one who
lives in your head
and you tried to change didn't you?
closed your mouth more
tried to be softer
prettier
less volatile, less awake
but even when sleeping you could feel
him travelling away from you in his dreams
so what did you want to do love
split his head open?
you can't make homes out of human beings
someone should have already told you that
and if he wants to leave
then let him leave
you are terrifying
and strange and beautiful
something not everyone knows how to love.” 

 Warsan Shire 
 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

"I'm the ghost in your house, calling your name..."


Encalhados...

Encalhamos nas coisas. Quando perdemos alguém, perdemo-nos também. Ok isso não é novidade nenhuma. O que eu não sabia é que há um excesso de sítios e objectos a lembrarem-nos das nossas ausências. O dos sítios já eu esperava e até os evito, agora os objectos?...(andamos nós na nossa vidinha, a pensar que está tudo sob controle, até que uma manhã idêntica a qualquer outra manhã damos de cara com o fantasma da pessoa amada a vaguear contra nossa vontade pela casa)...Ah que solidão desalmada a dos objectos sem ti. é um CD, um pente, aquela pedra polida que tu recolheste da praia e que depois pintámos juntos para servir de pisa-papéis, ela pisa-me, pesa-me tanto na alma. Há nela tanta ternura magoada. Mas continuamos a andar, recomeçamos sempre a andar, a insistir sabe-se lá porquê, avaliamos esforços, pequenas arrelias, tudo nos parece pequeno, vazio, torto, insignificante. mas entretemo-nos, à espera que o tempo conserte tudo aquilo que se partiu só que o tempo não conserta nada, torna tudo ainda mais irremediável, insuportável. Nada que um "fake smile" não consiga esconder, vamo-nos iludindo, escolhendo as companhias em função de pequenos detalhes que nelas nos evocam a pessoa querida e desaparecida. que dizer das pessoas que assim do nada, de repente enchem-se de ti? É por seres tão grande, gigante mesmo, que cabe lá tanta gente, não há fuga possível...encalhamos sempre nas pessoas e nas coisas que tanto queremos esquecer...


domingo, 12 de janeiro de 2014

Precious, fragile things...

"There are so many fragile things, after all. People break so easily, and so do dreams and hearts."
— Neil Gaiman, Fragile Things


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

monólogo duma alien a sentir-se velha e cansada...

Ontem éramos essa sensibilidade de criança, tínhamos "olhos redondos de espanto", o mundo era fruta madura de escolher, morder, espremíamos o suco dos dias para as nossas bocas, transpirávamos vida e a vida toda condensava-se num sorriso teu de te veres olhado por mim, só existíamos na exata medida daquilo que olhávamos porque nós não sabíamos nada, não compreendíamos nada mas víamos, provávamos, abraçávamos tudo. As palavras nomeavam exatamente aquilo que dizíamos, sem os gumes dos desenganos a magoar e nós mergulhávamos os dedos na matéria fundente da poesia que eram os nossos corpos labaredas sem sequer nos queimar, nós éramos o milagre de estarmos vivos. Quando é que deixámos a semente podre do Medo a crescer dentro da pele? Quando deixámos de nos surpreender, de acreditar? quando é que o silencio passou a valer mais do que as nossas palavras? Quando é que tudo começou a entorpecer de tanto doer? Que espécie de vida é esta que se leva sem paixão, na obrigação estéril e triste de se estar vivo? Quando é que nos tornámos estranhos um para o outro? Será que a vida é como naquela canção " Oh yeah life goes on long after the thrill of living is gone." Será que vale a pena sobreviver a uma vida assim?...but  "one of these mornings, won't be very long, You will look for me and I'll be gone"...
“And in the end, we were all just humans...Drunk on the idea that love, only love, could heal our brokenness.”    

 F. Scott Fitzgerald

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Foste tu que me desvendaste o Amor

"Foste tu que me desvendaste o amor que eu desconhecia. A bondade e a ternura, que eu desconhecia. Não exerci talvez nenhuma influência na tua alma -- tu apaziguaste-me. O amor era em mim um simples impulso: criaste-o, e pouco a pouco essa força nas tuas mãos se transformou em sentimento religioso. (...) É certo: cada ano que passa é um laço que nos prende e quanto melhor conheço a tua alma, mais me purifico ao seu contacto. Não só fazes parte do meu ser, mas da minha consciência. Chego às vezes a supor que tu és a minha consciência. Por isso esta separação vai ser dolorosa, ainda que eu creia que nos tornaremos a encontrar noutro mundo melhor. Não decerto para vivermos as horas que passamos juntos à beira do lume, penetrados um do outro e unidos pelo silêncio, mas numa vida superior que antevejo e numa paz mais profunda. Ainda assim tenho pena. Tenho pena das horas monótonas que correm -- do tempo que passa -- da brasa que se extingue...
Foste o fio que ligou a minha vida desordenada. Há em mim um ser desconhecido que me leva, se não estou de sobreaviso, a acções que detesto. Uma palavra tua me detém. Tenho passado o tempo a comentar-me e poucas almas me interessam como a minha. O que eu amo sobretudo é o diálogo com esse ser esfarrapado. Dêem-me um buraco e papéis e condenem-me à solidão perpétua. É-me indiferente... Isto é, um erro -- e tu fizeste-mo sentir. Sem mo dizeres -- compreendi que a nossa vida é, principalmente, a vida dos outros... Melhor: compreendi que a ternura era o melhor da vida. O resto não vale nada. Não é por a esmola da velha do Evangelho ser dada com sacrifício que é mais aceita no céu que o oiro do rico -- é por ser dada com ternura. O importante é a comunicação de alma para alma. A mão que aperta a nossa mão, o olhar húmido que procura o nosso olhar, o sorriso que nos acolhe, desvendam-nos o mundo. Às vezes é um nada que nos faz reflectir, é um momento, é uma figura que nos entra pela porta dentro e de quem nos sentimos logo irmãos...
Ainda não há muito que passei uma tarde no lagar, com os homens que assentavam os dornões, e achei um grande encanto àquela lide rude. Cheirava a mosto, e o cheiro pareceu-me mais penetrante que das outras vezes. É a quadra do ano em que caem as primeiras chuvas. Sente-se que vem aí o desabar imenso, nas noites que não têem fim --e aquela voz séria que nos faz reflectir. Há já um pique de frio, que sabe bem, e os ratos e as doninhas começam a levar para os buracos as primeiras folhas amarelecidas que caem das árvores. Tudo adivinha o inverno. A porta da adega comunica com a cozinha térrea da nossa pequena lavoura. Debruçada sobre o lar, a mulher deitava um feixe de sarmentos da poda sobre as brasas, e a fogueira lambia as paredes negras que reluzem, iluminava os potes de ferro e o berço do filho ao lado do lume, a quem ela ia falando em-quanto fazia o caldo... Este pequeno quadro de interior humilde -- o homem que trabalha comigo na mesma vinha, o moço que o ajuda, a mulher e o berço, fizeram cismar... Aproximo-me cada vez mais -- outro inverno, ou a ideia da morte? -- da vida de todos os dias. Esta época do ano é a que melhor se harmoniza com a minha alma um pouco cansada e triste -- já resignada diante do fim. É agora que eu acho mais sabor à vida -- quando a sinto fugir-me. Cheira a folhas apodrecidas. As sombras mais frias, à espera de outras sombras geladas e eternas, trespassam-me de humidade. Anuncia-se o grande inverno no pio das aves, na cor das folhas que se arrepiam com a lufada do vento e caem uma a uma com um ruído tão leve como os passos da Morte...
O sentimento da vida humilde inspiraste-mo tu; este e outros de apaziguamento e verdade. Ligaste-me mais aos vivos e aos mortos. Aos que estão sentados ao nosso lado nesta noite sagrada e à legião infinita que tem sofrido no mundo, cumprindo a vida, aos desgraçados e aos humildes, aos pobres de pedir que caminham como dantes pela estrada. A chuva cai fora, com o ruído manso de quem se resigna e aceita a dor... Cheguemo-nos mais para o lar, que eu faço arder uma fogueira que nos aqueça a todos -- toros de carvalho duros como ferro que dão uma luz mortiça e um calor persistente; o pinheiro que arde, estala, flameja, numa grande labareda fugaz; as vides que plantei e já me aquecem há dois invernos e as pinhas que gosto de atirar uma a uma ao lume e que se transformam em maravilhosas flores de ouro, cujas pétalas só duram um instante... Cheguem-se todos os que no mundo me deram um bocadinho de ternura!
Tu, primeiro, de quem herdei a sensibilidade e esta paixão pelas árvores e pela água, e de quem sinto as mãos pousadas sobre a cabeça, trespassando-me de ternura; tu, tão velhinha, que me quizeste como a um filho, e vós todas de quem confundo as cabeças brancas. Sinto na mão um dedo nodoso que já não existe e a que a minha mão ainda se apega. Sinto as mãos que toquei durante a vida. Muitas já desapareceram, mas estão aqui entre as minhas -- as mãos de meu pai, as mãos de minha mãe, as mãos pequeninas das crianças. Não a mão material -- mas as mãos espirituais. As mãos quando a gente as aperta e as tem entre as suas dão-nos o ser inteiro pelo contacto. Destruídas pela morte fica a ternura que nos transmitiram.
Um momento, um só momento, um momento e lágrimas, um único momento para lhes fazer sentir também a minha ternura, redobrada pelos anos, aumentada pela saudade, amplificada pelo conhecimento da vida e da dor!..."

Raul Brandão